A mídia é o 4º poder


Sabe quando você está assistindo, lendo ou ouvindo sobre um determinado assunto durante o dia e como um estalo, surge uma questão em sua mente: “Quem escolhe qual será a notícia de hoje?”.

Essa pergunta começa a gerar uma série de outras perguntas, tal como uma investigação.

“A massa sustenta a marca, a marca sustenta a mídia e a mídia controla a massa.” — George Orwell.

Nesse artigo vou entrar e seguir um caminho bem complicado, mas que serve pra explicar uma parte do contexto em quem vivemos. A intenção é passar uma visão e gerar diversas interpretações, expandindo o conhecimento. Não há uma verdade absoluta.

Tudo acontece por influência

A frase de George Orwell resume perfeitamente o ciclo da influência que molda a sociedade:

  • Marca: BET’s, McDonald’s, Nike, Itaú. Marcas precisam vender. Por isso, despejam bilhões em publicidade para plantar desejo e manter o consumo constante. O objetivo é simples: fazer você acreditar que precisa do que não precisa.

  • Mídia: Big Techs (Meta, Google, Amazon), Netflix, Hollywood, Globo. A mídia vive de audiência. Assim, cria conteúdos e anúncios cada vez mais chamativos, polarizados e viciantes, reforçando o ciclo que sustenta o consumo e a atenção.

  • Massa: Eu e você. O povão. Consumimos o que nos é mostrado, muitas vezes sem questionar. No fim, devolvemos às marcas todo o investimento com lucro multiplicado, mantendo o sistema girando sem perceber.

Essa engrenagem gira há décadas. E a cada volta, a fantasia se refina: narrativas mais sutis, contextos mais envolventes, tudo para tornar o artificial natural aos nossos olhos.

O 4º poder

Em democracias modernas, temos a divisão clássica entre três poderes. Cada um com sua função, para manter o equilíbrio do sistema:

  • Legislativo: cria e aprova as leis.
  • Executivo: executa e administra o que foi definido em lei.
  • Judiciário: interpreta e garante que as leis sejam cumpridas.

Esses três deveriam se equilibrar como engrenagens de um mesmo mecanismo. Mas há um quarto poder, não oficial, que move a percepção pública e redefine o que é certo ou errado aos olhos da massa: a Mídia.

A mídia como poder invisível

Diferente dos outros três, a mídia não tem mandato, voto ou limite constitucional. Mesmo assim, forma opiniões, constrói reputações e destrói carreiras em questão de horas. Ela decide o que deve ser visto, o que deve ser esquecido e o que deve ser odiado.

Em vez de fiscalizar o poder, muitas vezes atua como parte dele, moldando narrativas, selecionando versões e reforçando o que convém ao grupo dominante. É o poder de influenciar sem precisar assumir responsabilidade direta.

Do jornal à tela do celular

Antigamente, esse poder estava concentrado nas redações dos grandes jornais e canais de TV. Hoje, se espalhou. Influenciadores, portais, podcasts e algoritmos formam um novo ecossistema de controle narrativo. Mas o princípio é o mesmo: quem controla o fluxo de informação, controla o pensamento coletivo.

O que é notícia? O que é fake? Depende de quem publica, de quem financia e de quem se beneficia.

O verdadeiro perigo

O problema não é a mídia existir, é a falta de transparência sobre suas intenções. Enquanto o povo confia cegamente no que lê, assiste e compartilha, a “opinião pública” é moldada em laboratório, como um produto.

Quando o 4º poder deixa de informar e passa a instruir o que pensar, a democracia se transforma em teatro, com o roteiro escrito longe do palco.

Tudo é orquestrado

Como em uma orquestra, ninguém toca sozinho, todos seguem o maestro. Na comunicação, o maestro é o poder econômico.

Os grandes conglomerados de mídia compartilham interesses, pautas e viés ideológico, ditando o tom da conversa pública. Criam narrativas calculadas para moldar opiniões, conquistar audiência e, muitas vezes, agradar quem financia seus bastidores: políticos, empresas e anunciantes.

“Money talks, bullshit walks.” ― Stephen King, The Drawing of the Three.

E o dinheiro fala alto: “Money Talks”. Nem tudo é transparente, nem tudo é ético. Quem vigia o vigilante? Quem garante que o juiz é imparcial? Quando é má fé e quando é apenas mediocridade? E quando o crime se infiltra em universidades, tribunais e redações: quem sobra pra confiar?

O dinheiro molda os discursos

Empresas, marcas ou grupos de interesse investem em mídia, influenciadores e narrativas para gerar aceitação ou consumo. Esse fluxo muda o discurso. Não apenas o que é dito, mas como é dito.

  • Uma falácia típica: “isso é bom apenas porque é popular ou amplamente divulgado” (apelando à maioria ou ao marketing).

  • Autoridade no assunto: Quando uma figura respeitada endossa algo sem ter transparência sobre interesses financeiros.

  • Falsa dicotomia: apresentar duas opções como únicas quando há mais, favorecendo o que interessa ao financiador.

“O dinheiro muda as pessoas com a mesma frequência com que muda de mãos. Mas, na verdade, ele não muda o homem: apenas o desmascara.” — Tom Coelho.

Quando o discurso muda repentinamente, ou quando a figura se “vendou” (passou a seguir interesses contrários ao que pregava cegamente), perde-se credibilidade.

Meios que se contradisseram

Abaixo 2 exemplos de pessoas de um passado não tão distante.

Stephen Glass

Era jornalista de alto nível na revista The New Republic (1995 até 1998).

Foi revelado que muitos de seus artigos eram fabricados. Citações inventadas, pessoas que ele dizia entrevistar não existiam.

O discurso de “jornalismo investigativo sério” perdeu todo valor quando se descobriu que o interesse era mais autopromoção, carreira rápida e publicação por publicação.

Alguém que pregava um ideal (verdade, jornalismo transparente) mas na prática seguiu outro caminho.

Jimmy Savile

Apresentou o programa da BBC, Top of the Pops (1964–1984). Figura pública no Reino Unido, apresentador de televisão, associado a caridade e imagem de “bom cidadão”.

Depois foi revelado que ele abusava de dezenas de pessoas, por décadas, enquanto mantinha essa imagem pública.

O discurso (“sou uma pessoa de bem, ajudo”, “uso minha influência para bem”) desmoronou, porque bastou investigação para mostrar interesses escondidos, acessos privilegiados e impunidade.

É um caso extremo, mas ilustra como autoridades e influentes podem usar a imagem para esconder o real.

Narrativas do passado “sofrem” virada

A mídia tradicional como “guardião da verdade” perdeu parte de sua credibilidade no mundo digital, porque há cada vez mais evidência de que quem financia tem voz ou influência nos bastidores.

A narrativa de “celebridade ativista” permanece usada, mas há críticas de que muitas vezes é superficial, ligada a imagem ou à marca, e não necessariamente a compromisso real.

  • Quando um apresentador famoso fala: “Quem quer ser um milionário?…”. Ele se esquece de completar a frase: “…igual a mim.”

  • Quando um apresentador de jornal apresenta apenas um lado da história, ele informa com viés.

  • Quando o juiz de futebol não é coerente em suas marcações e não aceita tecnologia pra corrigir possíveis erros, está sendo parcial.

A lógica: “se muitos aceitam sem questionar, o discurso não precisa ser verdadeiro, só convincente”. Isso facilita que o dinheiro direcione o que se mostra como “verídico”.

Estratégia: dividir para conquistar

A lógica é simples: quanto mais o povo briga entre si, menos ele olha pra cima.

Essa é uma tática milenar, usada por impérios, igrejas, governos e corporações. No contexto moderno, ela foi refinada e turbinada pelos algoritmos das Big Techs e pela hipersegmentação da mídia.

Narrativas criadas para fragmentar

As divisões não surgem do nada. Elas são fabricadas e alimentadas:

Esquerda x Direita: O debate político vira guerra santa. Um lado demoniza o outro. Não há diálogo, só caricaturas. Isso desvia o foco dos problemas reais (corrupção estrutural, concentração de renda, falta de transparência). Enquanto o povo briga nas redes, os mesmos grupos econômicos financiam campanhas dos dois lados.

Brancos x Pretos: Movimentos legítimos por igualdade são sequestrados por discursos de ódio ou ressentimento. Extremistas transformam justiça social em palco de revanche, criando novos inimigos e alimentando o conflito racial, o que gera cliques e audiência. A causa real (igualdade, respeito, equidade) se perde em meio ao barulho.

Trabalhador x Patrão: Um clássico. O conflito é real, mas o extremismo o torna estéril. De um lado, sindicalismo cego; do outro, empresariado insensível. A polarização apaga nuances e impede a construção de soluções equilibradas, que exigem colaboração e racionalidade.

Homens x Mulheres / Fé x Ciência / Campo x Cidade: Toda binarização é terreno fértil para manipulação. A mídia e os grupos de interesse sabem disso: dividir é lucrativo. Conflito dá engajamento. E engajamento dá poder, de forma política e financeira.

Por que funciona?

Psicologia tribal: o ser humano busca pertencer a grupos, é instintivo. Quando alguém diz “o inimigo é o outro grupo”, o cérebro ativa o modo de defesa e lealdade automática. A partir daí, não importa mais o que é verdade, importa quem fala.

Recompensa emocional: o ódio e a indignação geram dopamina. O mesmo mecanismo que vicia em redes sociais ou jogos online vicia em “debate político”. É a “gamificação” da ideologia.

Economia da atenção: quanto mais as pessoas estão com raiva e discutindo, mais tempo passam conectadas. Isso significa mais anúncios, mais cliques, mais lucro. O caos é monetizado.

Como extremistas chegam ao poder

Identificam o ressentimento coletivo: o medo, a frustração, a insegurança.

Prometem um inimigo comum: apontam um “culpado” fácil (imigrantes, elites, minorias, ricos, pobres, mídia, qualquer grupo disponível).

Se posicionam como “voz da verdade”: anti-sistema, revolucionários, salvadores.

Exploram o caos: quando o povo está dividido, o discurso simples, emocional e autoritário ganha espaço.

  • A promessa: “Eu unirei o país”.
  • A realidade: consolidam poder enquanto as pessoas continuam brigando.

Foi assim com regimes totalitários do século XX, que se disfarçaram de “salvadores do povo” enquanto centralizavam poder e censuravam qualquer oposição. Fossem chamados de fascistas, nazistas ou socialistas. No fundo, o extremismo sempre usa o mesmo método, independente da bandeira: controle da informação, culto à personalidade, manipulação de massas e destruição do pensamento livre.

Hoje, a tática mudou de formato. Não há mais comícios em praça pública, mas há algoritmos, hashtags e narrativas embaladas em vídeos de 15 segundos. O controle continua, só ficou mais sutil.

O ciclo moderno

Mídia tradicional e digital amplificam narrativas conflitantes. As redes sociais segmentam o público em bolhas ideológicas. Políticos e influenciadores se aproveitam do clima para ganhar relevância.

Quando o extremismo se instala, vem o caos e o “salvador” assume o poder, com o apoio de quem estava exausto da confusão.

“Dividir para conquistar” funciona porque mantém o povo distraído e dócil, brigando por bandeiras que nem sempre são suas. Enquanto isso, o poder real: econômico, político e comunicacional; continua operando nos bastidores, inabalado.

Como o ódio vende

Plataformas de mídia e redes sociais já identificaram: conteúdo que desperta raiva, indignação e polarização gera muito mais engajamento (cliques, compartilhamentos, visualizações) do que conteúdo neutro ou conciliador.

Quando uma marca, veículo ou influenciador percebe isso, o ódio vira ferramenta: discursos rancorosos, acusações extremas, “nós contra eles” vendem muito. Isso gera receita via publicidade, seguidores, patrocínios.

Infográfico Imagem: Fluxo de engajamento por irritação.

Existe uma lógica: “se você irritar/deixar alguém bravo/choque, ele vai reagir, comentar, compartilhar” → mais alcance → mais valor comercial ou político.

Exemplos desse mecanismo: manchetes exageradas, conteúdos com tom de ataque, discursos que simplificam adversários como “inimigos”. Isso cria um ciclo onde o público “odiador” se sente parte de algo, engaja e alimenta o sistema.

Extremismo e atos de violência

Quando o ambiente está saturado de ódio e polarização, algumas pessoas vulneráveis ou radicais podem interpretar esse ambiente como autorização para agir. Não só “xingamentos” ou “cancelamentos”, mas violência física.

Um caso recente: Charlie Kirk. Ele foi fatalmente baleado em evento universitário nos EUA por um extremista do grupo oposto. “Especialistas apontam” que o clima de agressividade política, discurso violento e polarização online pode ter sido fator contribuinte.

Após o assassinato, grupos extremistas e canais radicais imediatamente utilizaram o evento como “chamado à ação”, propondo recrutamento de militância.

A polícia de Nova Iorque emitiu alertas de risco aumentado de “lone actor violence” (agentes individuais) após o caso, justamente por conta da escalada de tensão.

O ódio que “vende” em forma de conteúdo acaba revertendo em perigo real. O discurso alimentado se transforma em narrativa de “inimigo”, “legitimação da violência”, “ação direta”.

O poder do pensamento crítico

O antídoto contra qualquer manipulação, seja política, midiática ou ideológica; é simples e precisa despertar: pensar por conta própria.

Em um mundo saturado por narrativas, manchetes distorcidas e “especialistas de ocasião”, o pensamento crítico não é um luxo intelectual. É autodefesa mental.

“Estudos mostram…” será mesmo?

Vivemos na era do argumento de autoridade. Basta alguém dizer “pesquisadores comprovaram” ou “cientistas afirmam” e a maioria abaixa a cabeça. Mas poucas pessoas perguntam:

  • Quem financiou o estudo?
  • Quantas pessoas participaram?
  • O resultado foi revisado ou só interpretado de forma conveniente?
  • Há conflito de interesse?

A manipulação por meio de “estatística” é uma das mais elegantes. É a mentira sem mentir, apenas omite contexto. Com números, dá pra provar qualquer coisa. Se eu disser “90% das pessoas aprovam”, parece sólido; até você descobrir que foram só 10 entrevistados.

“Especialistas apontam…” apontam pra onde?

Muitos especialistas são pagos para defender pontos específicos, para empresas ou partidos. A credencial não garante imparcialidade. O erro é acreditar que formação equivale a verdade. A verdade precisa de coerência e contexto, não de crachá.

Por isso, questione tudo, mas sem paranoia. Questione com bom senso:

  • Isso faz sentido lógico?
  • Há evidências reais ou só emoções e palavras bonitas?
  • O discurso muda quando há dinheiro envolvido?

Equilíbrio é a chave

Pensar criticamente não é duvidar de tudo, é analisar antes de acreditar. O cético extremo se isola; o crédulo vira massa de manobra. O equilíbrio é o ponto ideal. É a dúvida com propósito.

Usar pensamento crítico é escolher não reagir no impulso. É olhar o gráfico, o vídeo ou a manchete e perguntar:

“Quem ganha com isso?”

É manter-se lúcido num ambiente que lucra com a confusão. Enquanto muitos gritam certezas, o pensador equilibrado observa, pondera e decide. Esse é o verdadeiro ato de rebeldia hoje.

O mundo não precisa de mais pessoas indignadas. Precisa de mais pessoas conscientes, atentas e com bom senso. Pensar criticamente é enxergar as engrenagens do jogo sem cair na armadilha de odiar o jogador.


Esse foi um artigo denso. Talvez poderia ter quebrado em 2 ou 3 assuntos, mas a concepção foi dessa maneira 🙂.

Recentemente pude conhecer opiniões de alguns músicos do rock sobre política. Deixo aqui as citações:

“Todos os políticos são uns malditos. Você nunca viu um político que cumpre suas promessas. Nunca viu um que não seja um mentiroso. Nem mesmo os verdes, pois eles costumavam ser do partido comunista, certo? Eles mudaram agora para uma cor diferente, mas é a mesma coisa. É tudo besteira, cara. É tudo uma questão de controle, eles querem que você faça o que eles dizem porque a palavra deles é melhor que a do outro cara. Não, não é!” — Lemmy Kilmister, Motorhead.

“A maioria de vocês que escolhe um lado vai se esconder como um bando de covardes se a coisa realmente explodir. Essa é a verdade. Continuem deixando a mídia dividir vocês. Eles vão acabar matando todos vocês. Só lembrem que o tio Daron avisou. Aí já será tarde demais. Extremo centro não significa que você não tem crenças e fica só assistindo, em cima do muro. Significa que você não faz parte de um time ou de um grupo de rebanho. Você pensa por si mesmo, sem pensamento coletivo.” — Daron Malakian, System of a Down.

Uma boa reflexão para ti. Desligue e deixe de seguir o que te faz mal. Viva sua vida e seja o melhor que puder ser. Compare sempre o discurso com as atitudes. Fique mais forte, fortaleça o que for preciso em você.

Referências

➡️ Mais artigos...